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Febre Amarela

Febre Amarela

Dr. SchatzmayrNova colaboração do virologista Dr. Hermann Schatzmayr, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e atual coordenador da Comissão Interna de Biossegurança do IOC: uma entrevista exclusiva concedida ao nosso Portal para nos esclarecer sobre a Febre Amarela, assunto bastante discutido no Brasil atualmente.

• BnA: O que é febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: A febre amarela é uma doença infecciosa aguda causada por um vírus, transmitida por mosquitos e que pode levar à morte do paciente em cerca de um terço dos casos em que aparecem sintomas.

• BnA: Qual é a situação atual da doença no Brasil? Pode-se dizer que no Brasil está ocorrendo uma epidemia?

Dr. H. Schatzmayr: No momento temos no Brasil ainda casos isolados, que estão surgindo exclusivamente em pessoas não vacinadas que visitaram regiões onde o vírus existe e passa de macaco a macaco através de mosquitos (ciclo silvestre). Estas pessoas foram picadas pelos mesmos mosquitos que transmitem a doença entre os macacos.

• BnA: Existe alguma causa imediata que possa ser associada ao atual surto da febre amarela no Brasil, como por exemplo, o aquecimento global?

Dr. H. Schatzmayr: Sim, a cada determinado número de anos aumentam os casos entre macacos, por razões que não se conhece muito bem e com isto o número de mosquitos infectados também aumenta, fazendo crescer a chance de pessoas serem picadas ao entrarem nestas áreas. No Brasil são áreas de risco toda a região norte, centro-oeste, oeste de Minas Gerais e da Bahia, Sul do Maranhão e do Piauí, além do noroste de São Paulo. Uma região bastante extensa na realidade.

• BnA: Quais os diversos tipos de febre amarela existentes no Brasil? Qual são os mosquito transmissores?

Dr. H. Schatzmayr: Existem dois tipos de ciclos naturais da doença: uma entre macacos nas florestas e no cerrado, transmitidas por dois mosquitos: Sabethes e Hemagogus (esta forma é a que existe no Brasil) e outra, que é o chamado ciclo urbano, no qual não existem macacos e a transmissão ocorre do paciente contaminado para o mosquito Aedes aegypti (transmissor do dengue) e este ao picar outra pessoa transmite o mesmo (esta forma está erradicada do Brasil desde 1942).

• BnA: Fale um pouco mais sobre os outros transmissores Haemagogus e Sabethes.

Dr. H. Schatzmayr: Os gêneros Sabethes e Hemagogus são exclusivamente de mata, não existem nas cidades e preferem voar nas copas das árvores, onde vivem os macacos. Estes mosquitos podem vir para perto do solo e picar o homem. Isto ocorre com frequência nas derrubadas de árvores, quando os animais fogem e os mosquitos procuram outros hospedeiros para se alimentar.

• BnA: Quem for picado pelo Aedes aegypti pode então adoecer simultaneamente de febre amarela e dengue?

Dr. H. Schatzmayr: Não são relatados casos, pois seria uma grande coincidência. Além disso a presença de um vírus no mosquito em geral bloqueia o desenvolvimento de outro vírus no mesmo inseto.

• BnA: Como ocorre a transmissão da febre amarela para o mosquito e deste para o ser humano?

Dr. H. Schatzmayr: No ciclo silvestre, único existente no Brasil, o homem é picado pelo mosquito que se infectou em macaco com o vírus e uma parte destas pessoas desenvolvem a doença.

No ciclo urbano as pessoas doentes durante os cinco primeiros dias em que o vírus permanece no sangue (a chamada viremia), amplifica o vírus. Ao serem picadas pelo Aedes elas se tornam disseminadoras da doença. O inseto, doze dias após a picada no paciente contaminado, começa a eliminar o vírus pela saliva e daí para frente contamina todas as pessoas que picar. Um mosquito vive em média dois meses, mas neste periodo é capaz de se alimentar em dezenas de passoas.

• BnA: O que fazer para diminuir o risco de contrair a febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: O mais importante é se vacinar se morar em área de risco ou precisar entrar nesta área (onde existe a doença nos macacos). Além disso, deve-se evitar o contato com os insetos, usando repelentes e telando as casas para evitar a entrada dos mosquitos.

• BnA: Qual a chance da febre amarela ser transmitida de um paciente para uma pessoa sã?

Dr. H. Schatzmayr: A febre amarela, como o dengue, não passam de uma pessoa diretamente para outra, é sempre  necessário o mosquito para que isto ocorra. Assim, um mosquito que se alimenta em uma pessoa doente com o vírus no sangue, é capaz de passar para uma pessoa sadia. Para que ocorra uma epidemia é necessário que um grande número de mosquitos seja infectado e que existam poucas pessoas vacinadas na área em questão. Caso contrário vão ocorrer alguns casos mas depois o episódio se extingue.

• BnA: Quais os sintomas da febre amarela? Quanto tempos após a picada os sintomas aparecem?

Dr. H. Schatzmayr: Cerca de cinquenta por cento das pessoas que são picadas por mosquitos infectados, não apresentam qualquer sintoma ou apresentam sintomas não definidos, sem que se possa identificar o caso como febre amarela. Os outros cinquenta por cento vão apresentar sintomas que variam bastante na sua gravidade. Nos casos mais graves ocorrem febre alta, calafrios, mal estar geral, dor de cabeça, dor no corpo, em especial nas costas, dores musculares intensas, náuseas, vômitos, icterícias (cor amarelada na pele e olhos) e hemorragias. Calcula-se que os casos com sintomas se dividem em partes iguais entre pacientes com sintomas leves, de média gravidade e casos graves. Nos pacientes graves a letalidade é alta, cerca de noventa por cento morrem. A incubação é de três a seis dias.

• BnA: O que uma pessoa deve fazer se achar que está com febre amarela ou apresentar algum sintoma de febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: Caso haja uma suspeita de febre amarela deve-se procurar de imediato um serviço de saúde, pois a doença evolui com rapidez. É importante informar com precisão as datas de viagens que tenha realizado, para que se possa saber em qual o período de evolução da doença está o paciente.

• BnA: Pode-se ter a febre amarela mais de uma vez?

Dr. H. Schatzmayr: Não, a imunidade pela doença é muito sólida e não existem casos comprovados de reinfecções com sintomas.

• BnA: Quais as complicações mais comuns? A icterícia ocorre sempre em pacientes com febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: O vírus da febre amarela ataca fortemente o fígado, rins e coração. A lesão no fígado causa a icterícia em muitos pacientes, em variados graus, indicando uma agressão importante no orgão. O quadro renal é em geral o que causa a morte, pois os rins podem deixar de funcionar, causando uma intoxicação gravissima do paciente, com lesões em vários orgãos inclusive no sistema nervoso.

• BnA: Existem cuidados especiais para serem tomados com bebês, crianças, gestantes e idosos?

Dr. H. Schatzmayr: Sim, pois a vacina não deve ser aplicada em crianças menores de oito meses. Alguns pediatras indicam no mínimo doze meses de idade. O vírus da vacina, que é um vírus vivo atenuado, pode se disseminar no organismo abaixo destas idades.

Gestantes também não devem ser vacinadas. Somente em condições muito especiais, em uma epidemia. Pessoas de idade avançada podem não responder bem à vacina, formando poucos anticorpos protetores. Além disto, pessoas com imunidade baixa, como portadores do vírus HIV, somente devem ser vacinadas sob avaliação médica prévia. Desta forma, estes grupos devem ter muito cuidado para não serem picados por mosquitos quando viverem ou entrarem em áreas de risco.

• BnA: Qual o tratamento recomendado ao paciente de febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: Não há tratamento específico, normalmente são dados medicamentos e aplicadas outras práticas médicas de suporte aos orgãos lesados e espera-se uma resposta favorável do paciente.

• BnA: Qual o tempo necessário para a recuperação de um paciente com febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: A recuperação pode ser relativamente longa, por várias semanas, até que o paciente volte totalmente às sua atividades normais. Ao contrário de outras doenças hepáticas, como as hepatites virais, o paciente de febre amarela não apresenta seqüelas, ou seja, não ocorrem lesões permanentes no orgão.

• BnA: Qual a diferença entre a dengue, a malária e a febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: Dengue e febre amarela são infecções causadas por dois vírus do mesmo grupo, chamado flavivírus, porém as doenças são diferentes, sendo a febre amarela em geral mais grave. Ambas são transmitidas por mosquitos e as doenças no começo podem se confundir. A vacina contra a febre amarela não protege contra a dengue.

A malária é causada por um protozoário, que é bem maior que os vírus e que se multiplicam no organismo por mecanismos totalmente diferentes. Também é transmitida por mosquitos, porém do gênero Anopheles sendo uma doença de longa duração que apresenta crises sucessivas ao longo dos anos, se não for tratada adequadamente. Algumas formas da malária podem matar em relativo curto tempo, como infecções que atingem o cérebro da pessoa infectada. Não existem vacinas para malária, como também não existem vacinas para dengue.

• BnA: Quanto tempo após a vacinação (contra febre amarela) ocorre a imunização? Quanto tempo ela dura? A partir de que idade se recomenda a vacina?

Dr. H. Schatzmayr: A vacinação somente protege após dez ou doze dias de sua aplicação. É o tempo necessário para que se formem bastante anticorpos. A imunidade vacinal é longa, em torno de dez anos.

• BnA: Existem efeitos colaterais ocasionados pela vacina ou mesmo outras interações medicamentosas?

Dr. H. Schatzmayr: Sobre interações medicamentosas, a principal é dar um intervalo mínimo de quatro semanas entre a vacina contra a febre amarela e outra vacina viva, como sarampo, rubéola, poliomielite, caxumba. Uma vacina viva necessita um determinado tempo para formar anticorpos no organismo e uma outra vacina com vírus vivo poderia atenuar ou bloquear a resposta de anticorpos. Alguns medicamentos anti-depressivos e supressores de imunidade, usados por exemplo em indivíduos transplantados, podem causar disseminação do vírus no organismo, podendo gerar quadros graves como meningites e encefalites.

A vacina contra febre amarela é um excelente produto mas existem algumas (raríssimas) pessoas que respondem mal ao vírus vacinal e pode ocorrer uma disseminação do vírus no organismo com quadros graves e até fatais. Não há como prever estes casos, os quais devem ser atendidos como um caso de doença pelo vírus não-vacinal. Estes casos têm ocorrido no Brasil e em outros paises e têm sido também observados nas últimas semanas em pessoas que se revacinaram antes dos dez anos da última vacinação.

• BnA: A vacina já está incluída no calendário de vacinação brasileiro? Ela é obrigatória?

Dr. H. Schatzmayr: A vacina é altamente recomendada para aqueles que vivem em áreas de risco, embora ninguém possa ser obrigado a tomar qualquer vacina ou outro medicamento. A vacinação nestas áreas é bastante extensa, prova disso é que nenhum dos casos que ocorreu neste ano no Brasil, é paciente que vive em área de risco, todos vivem em outras regiões, não se vacinaram e entraram em área de circulação de vírus sem proteção prévia.

• BnA: Quem deve se vacinar?

Dr. H. Schatzmayr: Devem se vacinar todos que vivem em áreas de circulação de vírus e os que necessitam ou desejam entrar nesta áreas. As outras pessoas não precisam e nem devem se vacinar.

• BnA: Fale um pouco sobre a vacina contra a febre amarela (descoberta, desenvolvimento, etc).

Dr. H. Schatzmayr: A vacina contra febre amarela foi descoberta pelo grupo de pesquisadores da Fundação Rockefeller em Nova York, na decada de 30 do século passado. Hoje se entendeu que foi uma grande coincidência favorável, pois o vírus selvagem foi inoculado sucessivamente em culturas de fragmentos de embriões de galinha, dos quais se havia retirado o sistema nervoso central. Depois de muitas culturas sucessivas, acima de duzentas, se observou que o vírus não mais causava a morte de macacos, diferente dos vírus obtidos diretamente do paciente.

Este vírus passou a ser usado para o preparo da vacina, ainda hoje feita em embriões de galinha. Nunca mais se conseguiu esta modificação do vírus, mesmo se repetindo exatamente o mesmo experimento.

O Brasil participou muito da fase inicial da avaliação da vacina e hoje é o maior produtor mundial de vacina contra febre amarela, exportando para muito países da América Latina e África. Aliás, a África é a origem do vírus, trazido para nosso continente pelos colonizadores. Até hoje a doença é muito mais importante naquele continente onde ocorrem a cada ano cerca de cinco mil casos, contra trezentos a trezentos e cinquenta, em média, nas Américas.

• BnA: Mais alguma observação especial sobre a febre amarela?

Dr. H. Schatzmayr: O importante em febre amarela é se vacinar quando indicado, pois basta uma única picada de um mosquito infectado para causar a doença e talvez a morte do indivíduo.



Dr. Hermann G. Schatzmayr, é doutor pelas Universidades de Giessen e Freiburg / Alemanha e Livre-Docência em Virologia pela Universidade Federal Fluminense, pesquisador nível 1° do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) desde 1962. Assessor da Organização Mundial da Saúde/ Genebra, membro da Academia Brasileira de Ciências e Academia Brasileira de Medicina Veterinária.

Sua área de atuação é Microbiologia, com ênfase em Virologia, principalmente nos temas: flavivirus em especial dengue e febre amarela, biossegurança e poxvirus no Brasil.

Entrevista e texto: Ute Ritter

Foto: Dr. Hermann Schatzmayr, Virologista do Departamento de Virologia da Fundação Instituto Oswaldo Cruz/RJ/BR. Isolou o vírus da dengue pela primeira vez no Brasil, em 1986.

Nossos agradecimentos ao Dr. Hermann G. Schatzmayr por mais uma entrevista exclusiva concedida ao site Brasileiros-na-Alemanha.com.

Copyright: http://www.brasileiros-na-alemanha.com

Este texto é uma entrevista exclusiva concedida ao nosso portal e só poderá ser reproduzido ou traduzido (completo ou em parte) com autorização escrita da administração do site Brasileiros-na-alemanha.com. A reprodução só será autorizada se forem DADOS OS DEVIDOS CRÉDITOS AO SITE E À AUTORA DA ENTREVISTA.

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