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Olaf Dammann: um coração dividido entre Brasil e Alemanha

Olaf Dammann

Vamos conhecer mais um alemão que curte muito o Brasil e é a-pai-xo-na-do por black music! Conversamos com Olaf Dammann, professor de alemão para estrangeiros e cantor de reggae que vive em Bielefeld, NRW. Nosso simpático entrevistado tem 40 anos, nasceu em Lübbecke, no estado de NRW, é casado, pai de dois meninos, de 2 e 4 anos, e no momento termina seu bacharelado em Deutsch als Fremdsprache / Geschichte (Alemão como Língua Estrangeira e História) na Universität Bielefeld, preparando-se ainda para um mestrado logo depois.

Ele morou no Brasil durante 9 anos, passando a maior parte deste período em Campinas, São Paulo, cerca de 6 anos, indo depois morar em Salvador por aproximadamente 3 anos.

Nesta longa entrevista vamos saber um pouco mais sobre este alemão de opiniões diretas e sem rodeios, mas que possui um grande carinho pelo nosso país e que fala e escreve em português de forma (quase) impecável! 

De “bônus” ainda ganhamos uma pequena "aula" sobre black music contemporânea no Brasil e na Alemanha, com direito a comentários e uma pequena e detalhada análise sobre a cena musical dentro do estilo entre os dois países!

Alemanha + Brasil 2013/2014Em parceria com a página Brasileiros-na-Alemanha.com, a Temporada Alemanha+Brasil publicará uma série de entrevistas de brasileiros que trazem consigo grandes histórias sobre a vida na Alemanha.

►Curta a página da Temporada e confira toda quinta-feira uma de nossas entrevistas fresquinha na Fanpage: https://www.facebook.com/alemanha.e.brasil

Esta semana vamos conhecer Olaf Dammann, professor de alemão para estrangeiros e cantor de "reggae" que se auto-denomina um "Alemão-Brasuca". Ele morou durante 9 anos no Brasil e pensa em voltar a viver no país com sua família.

Olaf DammannBNA: Por que você foi morar no Brasil?

OLAF DAMMANN: Comecei a namorar uma brasileira no fim de 1994 e acabei me tornando quase que um membro da família dela. Conheci o Brasil (sudeste) no começo de 1997 pela primeira vez e me apaixonei profundamente pelo Brasil, dessa forma virou uma dupla paixão [risos]. Fiquei três meses e depois a saudade foi tão grande que eu queria muito voltar, mesmo depois que o namoro tinha terminado, em 1998. Um ano depois essa família resolveu voltar para o Brasil e perguntou se eu queria ir junto. Nem perdi tempo pensando no assunto. Foi o início de uma grande aventura e uma mudança radical na minha vida.

BNA: Você já sabia falar português antes de ir morar lá? Como foi o aprendizado do nosso idioma?

OLAF DAMMANN: Sabia muito pouco. Depois de uns dois anos convivendo com brasileiros eu já conseguia entender o que estavam falando, mas não sabia falar. Comecei a fazer um curso, mas achei muito chato e desisti logo. Eu preferia aprender praticando. Quando estive no Brasil em 1997 comecei a falar algumas coisas mais simples, mais fáceis, small talk, mas só depois de me mudar pro Brasil de vez foi que eu comecei a formar frases mais complexas. Aí foi rapidinho, depois de uns três meses já estava me comunicando bem. E teve um tempo que eu falava até sem sotaque! Hoje já não falo mais tão bem quanto antes, esqueci muitas palavras e o sotaque voltou.

BNA: O que você pensava sobre o Brasil antes de ir morar lá? Alguma coisa mudou ou se confirmou na sua forma de ver o Brasil depois de todos estes anos?

Olaf Dammann

OLAF DAMMANN: Eu nem lembro mais direito o que eu pensava do Brasil. Eu era muito bom em geografia quando criança, então eu sabia que o Brasil ficava na América do Sul, mas a minha ideia era que lá era como boa parte da África, que praticamente todos eram negros, muito pobres e que não era muito civilizado. Eu era um pouco ignorante mesmo, porque eu pensava que todos os estrangeiros eram turcos quando não eram loiros, negros ou asiáticos. Pensei isso da minha namorada também quando eu a vi pela primeira vez.

Fiquei muito surpreso quando ela me disse que era brasileira. Nunca imaginei que tinha brasileiros morando na Alemanha, de um lugar tão distante! Depois de conhecer a cultura brasileira eu gostei demais! A comida, a música, o calor humano, entre outras coisas. E eles me falaram tão bem do Brasil que eu tinha mesmo vontade de conhecê-lo.

Apesar de ter esperado coisas piores, fiquei chocado com a pobreza, com as casas simples que eu vi, as ruas, a infraestrutura. Também foi praticamente a primeira vez que eu saí da Alemanha. Antes disso só tinha ido pra Amsterdam, que nem é muito diferente da Alemanha.

Ao mesmo tempo que eu levei esse choque, fiquei fascinado ao ver como o Brasil era moderno também. Nada de carro velho, todos tinham TV e aparelho de som. Tem belos shopping centers e boates e muito mais. Aprendi que o Brasil tem esses extremos: ao mesmo tempo que é um país do futuro ele é muito atrasado, ainda mais depois de ver a pobreza do Nordeste com os próprios olhos. Por outro lado, foi na Bahia que eu encontrei o Brasil que eu tinha imaginado antes de conhecer o Brasil.

O que mudou muito com os anos era a minha imagem sobre a violência. No começo não achei o país nada violento como muitos disseram. Só com o tempo eu aprendi que a violência está, sim, bem enraizada na sociedade brasileira. Isso me decepcionou um pouco. Agora que estou de volta na Alemanha, podendo apreciar a paz que sinto aqui, estou até com medo de voltar, porque vejo o Brasil cada vez mais violento, mesmo que não tenha mudado muito desde que eu o conheci.

Mas antes eu era mais cego e ingênuo quanto a esse e outros aspectos da convivência, como o humor de duplo sentido, as brincadeiras, a malícia, a malandragem etc.


Cantor de reggae e o amor pela black music

BNA: Você é músico e cantor?

Olaf DammannOLAF DAMMANN: Sou só cantor, não toco nenhum instrumento. Comecei em 1989 a cantar rap, era o estilo que eu mais gostava, por um bom tempo. Eu sempre cantava com os meus amigos nas discotecas e clubes de Black Music na região. Depois de conhecer os brasileiros comecei a gostar de música brasileira, principalmente de pagode e samba-reggae, e de reggae também. Tinha alguns CDs que sempre tocavam na casa deles: da banda Raça Negra, do Olodum e uma de Chaka Demus & Pliers (uma dupla da Jamaica que fez muito sucesso nos anos 90). Gostei de tudo por igual, mas esse estilo de reggae chamado dance hall é muito parecido com o rap e por isso comecei aos poucos a adaptar o meu estilo de cantar a esse estilo.

Depois de mudar para o Brasil conheci um vizinho que era DJ e MC e junto com a sobrinha da minha ex-namorada resolvemos fazer uma banda, nos chamávamos de Dejavú (!). Tivemos até algumas apresentações na TV regional em Campinas e numa cidade vizinha, mas a banda não durou muito tempo e então resolvi parar um pouco de fazer música. Acabei me concentrando em outros assuntos – eu me tornei uma pessoa muito religiosa e também comecei a dar aula de inglês e alemão – e acabei me tornando só um consumidor de música, começando a gostar cada vez mais de roots reggae, já que o dance hall não era muito popular no Brasil. Só em Salvador, no último ano que eu morei lá, conheci uma galera que divulgava esse estilo musical na Bahia.

De volta à Alemanha entrei primeiro num grupo de samba, os Sambistas de Bielefeld. Foi um tempo divertido, mas não era bem o que eu queria. Ao mesmo tempo comecei a fazer novas músicas no estilo new roots (a evolução do roots reggae) e dance hall que eu comecei a divulgar pela internet. Também fiz bom proveito da minha grande coleção de CDs brasileiros, tocando de vez em quando como DJ na Campus-rádio da minha universidade.

Olaf Dammann

Mais ou menos um ano depois de sair dos Sambistas conheci uma banda de reggae – The Lightship Crew – e acabei me tornando o vocalista da banda. Já fizemos algumas apresentações e estamos preparando o nosso primeiro CD agora. Não somos uma banda profissional, fazemos isso só por passatempo.

BNA: Você curte música brasileira? Qual?

OLAF DAMMANN: Eu sempre gostei de black music, quer dizer música com influência africana, seja hip hop, soul, R&B e depois o reggae e todas as vertentes da música afro-brasileira como samba, pagode, samba-reggae, samba de roda, rap nacional, baile funk, charme, axé, entre outros.  Gostei também do MPB desde o começo, também um pouco de rock nacional e de lambada. Outros estilos musicais como o forró, o calipso e o carimbó só passei a gostar depois de morar no Nordeste. Os únicos estilos que eu não gosto de jeito nenhum até hoje são a música sertaneja, seresta e brega. E o pagode baiano (também conhecido como "swingueira") comecei a achar muito monótono com o tempo.

As minhas bandas e cantores preferidos são/eram: Djavan, Caetano, Gil, Sampa Crew, Cidade Negra, Olodum, Timbalada, Skank, O Rappa, Natiruts, Tribo de Jah, Edson Gomes, Daniela Mercury, Ara Ketu, Fundo de Quintal, Negritude Junior, Soweto, Kiloucura, Malícia, Art Popular, Raça Negra, Mauricio Manieri, Jorge Vercilo, Paulo Ricardo, Jota Quest, Charlie Brown Jr, Claudinho e Buchecha, só para mencionar os mais conhecidos.

 Olaf Dammann

BNA: Há alguma influência da música brasileira em seu trabalho?

OLAF DAMMANN: Não, mas tem músicas com letra em português também. O meu sonho é fazer um dia uma música de fusão entre o dance hall e o samba reggae

BNA: Já se apresentou com algum artista brasileiro? Quem?

OLAF DAMMANN: Já fiz uma música com um cantor de dance hall no Brasil, o nome dele é Ras Diego Lion. Pretendo fazer mais músicas com outros artistas brasileiros ainda. E um dia quero poder tocar com a [minha] banda no Brasil. Já estou com esse plano em mente.

 

BNA: Qual a sua opinião sobre a cena musical do Brasil atualmente?

OLAF DAMMANN: Não estou mais por dentro. Eu gostava mais da cena dos anos 90. O Samba e o pagode não são mais tão legais e eu não gosto do desenvolvimento de alguns estilos musicais como a mistura de forró ou sertanejo com a música eletrônica. E eu estou achando que está faltando artistas novos como tinha antigamente, como Gil, Caetano, Djavan, Tim Maia, Cazuza, Renato Russo etc. Cadê os músicos de verdade? Mas eu gostei do desenvolvimento que o reggae e dance hall teve no Brasil.

Tem alguns cantores, como Dada Yute, produtores como Mistah Dagga  e sound systems ( igital dubs) de boa qualidade.

BNA: E na Alemanha?

OLAF DAMMANN: Também não acompanho muito o que está nas paradas de sucesso, estou mais de olho na cena de reggae nacional como internacional, já que há muita participação de cantores do reggae internacional – principalmente da Jamaica, claro – com produtores e artistas daqui. Mas em geral, depois de jovem, passei a não gostar muito da música alemã cantada em alemão. Gostei de alguns rappers e alguns regueiros, e gosto principalmente do cantor Xavier Naidoo como também das cantoras Casandra Steen e Joy Denalane. Teve um tempo que a Alemanha era muito famosa por sua música eletrônica, mas não sei se isso ainda é o caso.

Olaf Dammann

BNA: Existem bandas de reggae na Alemanha? Qual a banda mais conhecida?

OLAF DAMMANN: Existem, mas não sei se tem tantas como no Brasil. No Brasil a cena reggae é muito variada, há muitas bandas mesmo que tocam roots. Eu acho que por aqui toda cidade um pouco maior deve ter no mínimo uma também. Eu nem sei quantos tem na minha cidade, só sei de três bandas incluindo a nossa. Mas tem alguns artistas solo também, inclusive alguns jamaicanos.

As bandas mais conhecidas de toda a Alemanha são Seeed e Culcha Candela. E os artistas mais conhecidos são Gentleman e Patrice. Mas todos eles alteraram um pouco o seu estilo com o passar do tempo. Outras bandas ou artistas que são mais conhecidos são Ganjaman, Uwe Banton, D-Flame, Cornadoor, Jahcoustix, Nosliw, Ronny Trettmann, Sebastian Sturm, Goldi, Mono & Nikitaman, Uwe Kaa, Kimoe, Miwata, Simon Grohe, Slonesta, Ephraim Juda entre outros.

Além disso, há os sound systems, um tipo de grupo composto por vários Djs (selectas) e um Mc (tipo um animador de festas, as vezes ele também é cantor), o dono ou administrador, os técnicos, apoio móvel e o equipamento. É tipo uma discoteca ao ar livre, ambulante. Eles são muito populares – esses são os mais importantes: Pow Pow Movement, Sentinel, Jugglerz, Silly Walks Movement, Soundquake, Ragganoia, Supersonic e Concrete Jungle. No Brasil também tem alguns: Echo Sound System (SP), Digital Dubs (RJ), Dubatak (RJ), Lion Kulcha Sound (Curitiba), Ministereo Publico (SSA) entre outros.

BNA: O que você acha das críticas a respeito da banda alemã Seeed, de que eles se tornaram comerciais demais?

Acho válido, a crítica é algo muito importante, é um feedback para a banda. Se a crítica for muito alta e muito severa, se os fãs estiveram decepcionados, a banda deveria refletir se deveria continuar no caminho que está. Eu não acompanho o desenvolvimento da banda Seeed, gosto dela, mas não sou uma grande fã.

Também notei isso, o que eu já tinha mencionado antes, que com o tempo eles acabaram alterando seu estilo, incluindo muitos elementos da música pop, perdendo assim a reputação de ser original e autêntico. Mas nem sempre isso significa que a música perde qualidade. No caso do Seeed notei que eles sempre mantiveram um nível muito alto de qualidade. De certa forma é normal que a música mude, porque a banda se desenvolve e música em geral também está sempre em evolução. Se for pra melhor ou pra pior na verdade é uma questão de gosto pessoal. Por um lado o Seeed fez isso, por outro lado se manteve fiel ao seu estilo que sempre era uma fusão de reggae, dance hall e hip hop com muitos efeitos e elementos de música eletrônica, diferente do Gentleman que era mais roots e o último álbum dele ficou muito mais mainstream que os antecessores, porém sempre há músicas que transportam a mesma vibe de sempre. Isso vale pros dois.



Confusão e... terrorismo?

BNA: Você passou por algum momento engraçado, divertido ou inesquecível no Brasil? Poderia nos contar?

OLAF DAMMANN: Houve muitos momentos inesquecíveis e sem dúvida, muitos bem engraçados também, mas infelizmente só lembro de poucos agora. O acontecimento mais engraçado que eu lembro agora talvez foi o de ser confundido com um terrorista num evento religioso. Era num grande evento na cidade de Mairiporã, São Paulo, num local de difícil acesso. Eu fui lá para visitar alguns amigos de Atibaia onde eu ia passar alguns dias com eles. Por isso eu tinha uma bolsa grande comigo. Fui de ônibus e desci na estrada no ponto mais perto do local. O resto do caminho eu fui andando, o que levou mais ou menos meia hora.

Chegando ao local o evento já havia começado, então eu fui procurar um lugar para sentar. Deixei a minha bolsa pesada na cadeira e fui procurar os meus amigos. O que eu não sabia era que eu tinha sido observado por alguns monitores que acharam estranho que eu cheguei andando pro local e não de carro ou de ônibus como a maioria e ainda com aquela bolsa enorme. Um deles me seguiu, mas me perdeu depois quando eu fui procurar os meus amigos. Como eu deixei a bolsa lá e depois saí sem eles saberem onde eu estava, eles pensavam que eu poderia ter deixado uma bomba ali e que eu poderia ser um terrorista. Quando foram olhar a bolsa mais de perto notaram que era de um estrangeiro e ainda ficaram mais apavorados. Depois de um tempo tomaram coragem de abrir a bolsa e ficaram aliviados porque não tinha nenhuma bomba dentro. Só depois, no intervalo, eles me reencontrarem e um outro monitor então me reconheceu porque ele também era de Atibaia e conhecia os meus amigos. Então ele contou pra gente o que tinha acontecido e nós todos caímos na gargalhada e ainda falando por muito tempo desse mal entendido.

 

Voltar para o Brasil?

BNA: Você sente "saudades" do Brasil? Do que sente mais falta?

OLAF DAMMANN: Às vezes sim, às vezes não... No começo mais que agora. Sinto falta de muita coisa, mas também estou feliz por ter progredido mais na vida desde então. Sinto falta do mar, do clima, da sensação de mais liberdade (menos regras), do povo e do seu calor e humor, algumas comidas (acarajé, couve, uma boa caipirinha), poder relaxar na rede a céu aberto, o barulho! Música na rua, nas casas, os lugares onde eu já fui passear, e os que gostava de frequentar, do meu trabalho de professor e muitas outras coisas.

Um motivo de eu não sentir mais saudades é que estou sempre com essa possibilidade em mente, de que nos um dia voltaremos a morar no Brasil. Em geral, a gente sempre tem mais que um plano para o nosso futuro. Estamos agora na Alemanha, estou fazendo a faculdade que eu sempre quis fazer desde que comecei a trabalhar como professor. Antes der termos filhos o nosso plano era voltar para o Brasil depois de terminar os meus estudos. Se surgir um bom emprego no Brasil a gente volta mesmo. Não estou correndo atrás disso, mas estou sempre de olhos abertos.

Apesar de estar longe do Brasil, não me sinto longe e desligado dele. Sempre penso e lembro do Brasil e às vezes me sinto como se eu ainda estivesse lá ou como se eu só estivesse passando um tempinho fora para depois retornar para casa.

 

BNA: Você gosta de comida brasileira?

OLAF DAMMANN: Gosto muito, senão eu não teria aguentado esses anos todos. Gosto de feijão, feijoada, acarajé, churrasco, milho cozido, farinha, cocada, coco, batata recheada, queijo assado, coxinha, quibe, cuscuz de tapioca, açaí na tigela, cachorro quente, sanduiches, quindim, pão de queijo, vários sucos, cachaça com frutas, licor de jenipapo (e outros), guaraná, pastel, amendoim cozido, pudim, maria-mole, churros e gosto ainda de muitas outras coisas... ou melhor gostava! Eu me tornei vegetariano – quase vegano – tem uns oito meses e vai ter muita coisa, que não vou comer mais. Vou apreciar mais as frutas na próxima vez que eu estiver no Brasil.

 

BNA: Há alguma coisa que te incomodou no comportamento brasileiro?

OLAF DAMMANN: Sim, claro que há coisas sobre as quais poderia reclamar, mas também não quero generalizar, porque nem todos os brasileiros são assim. Porém o que me incomodou às vezes é que alguns prometem e não cumprem com a promessa; e que muitos não falam o que pensam para não machucar ninguém. E outros já são bem falsos mesmo. Tem que ter cuidado em quem confiar por mais amigo que ele parece ser. Tem também a relação com o tempo ou a hora: as longas esperas nas filas ou pelo ônibus, ou num encontro (o que raramente aconteceu comigo) ou por uma visita... mas até que eu me adaptei bem a isso, não tenho problemas enquanto isso não me prejudique de alguma forma. Outra coisa que eu não gostei muito é quando até os homens gostam de muito contato físico [risos] ;)

Mas o pior de tudo são a corrupção, a injustiça e a impunidade que regem no Brasil.

 

BNA: Houve choque cultural vivendo no Brasil?

OLAF DAMMANN: Só houve um pouquinho quando foi de visita para o Brasil em 1997. Eu não me lembro de nada chocante depois de me mudar pro Brasil. Eu acho porque eu já tive tanto contato com a cultura e também já estive no país antes. O maior choque foi a pobreza, mas nos acostumamos com tudo.

No começo eu achava tudo uma aventura e muito interessante, eu queria era mergulhar por completo nessa cultura e me tornar um brasileiro também. Por isso aceitei e abracei tudo do jeito como estava. Mas nunca me senti jogado na água fria, também por causa do apoio da família e dos amigos, sempre me senti seguro e não tinha muito medo.

 

O "alemão-brasuca"

BNA: Há alguma coisa "de Brasil" que você incorporou à sua vida depois de ter vivido por lá?

OLAF DAMMANN: É difícil avaliar isso, mas eu acho que sim. Só pelo fato de eu continuar falando português diariamente isso já faz com que eu continue preservando a cultura brasileira dentro de mim, porque a língua e as palavras são importantes transportadores de identidade. Eu mergulhei tanto nessa identidade que não daria nunca para tirar tudo. Tinha um tempo que eu achava que eu tinha me tornado brasileiro mesmo... e muitos também me confundiram com um e ficaram surpresos depois de saber que eu sou alemão/gringo.

Foi no Brasil que eu aprendi a abrir o meu horizonte e a me tornar uma pessoa com mais personalidade e mais coragem, mais aberta e mais amorosa.... E menos bobo ;)

O Brasil tirou a minha inocência e me tirou do meu mundo fechado, do mundo de fantasia para a realidade, me fez abrir os olhos e isso é algo que não tem como “rebobinar“. As experiências no Brasil me marcaram e nada tira essa marca de mim. Mesmo depois de seis anos de volta continuo me sentindo um "alemão brasuca".

Por outro lado nunca deixei de ser um alemão típico também. Eu pensava que tinha me tornado um brasileiro legítimo, mas com o tempo e principalmente por causa da convivência com a minha esposa, eu acabei enxergando algumas "falhas" em mim que derivam da minha cultura alemã.

 

BNA: Você daria alguma dica para os brasileiros que têm dificuldade de adaptação na Alemanha?

OLAF DAMMANN: Eu acho que é difícil lidar com isso quando uma pessoa não se sente bem em outro país e só quer estar de volta no seu país, mas não pode porque tem responsabilidades aqui. Não sei nem o que dizer nesse caso. Tem um ditado alemão que diz "Jeder ist seines Glückes Schmied“. Pra ser feliz você tem que fazer de tudo que está ao seu alcance - independentemente de onde você esta. A felicidade não está no lugar, nem em outras pessoas, está em primeiro lugar em nós. E devemos levar ela conosco quando nos mudamos. Todos continuamos sendo a mesma pessoa, o que muda é só o local.

Às vezes são as coisas pequenas que fazem com que isso venha à tona de novo. Veja o que há de bom em sua volta, não se concentre nos lados negativos. Busque também um sonho que você possa realizar onde você está. O pior é ficar parado. Acho que não preciso ressaltar que saber o idioma é a base disso tudo. O que você gostava de fazer no Brasil? Será que nada disso seria possível fazer onde você está agora? Procure estabelecer contanto com alemães ou outros estrangeiros com quem você seja forçado a falar alemão, evite passar todo o tempo só com brasileiros.

 

A Copa do Mundo no Brasil

 

BNA: Você curte futebol? De onde verá os jogos? Na Alemanha ou vai para o Brasil?

OLAF DAMMANN: Nunca foi muito chegado ao futebol, só quando era criança por um tempo curto. Gosto só da Copa por causa do clima extraordinário que ela transporta, mas até agora não tive sorte de poder estar presente no país onde será executada a copa. Em 2006 [Copa do Mundo na Alemanha] estava no Brasil e dessa vez estou na Alemanha. Não temos como ir pro Brasil esse ano, mas também não faço questão. Prefiro ver de longe no que isso vai dar. Não estou muito otimista que essa Copa será a melhor de todos os tempos como a Dilma disse.

 

BNA: Qual o seu palpite para a Final da Copa?

Então, a minha final preferida sempre será entre o Brasil e a Alemanha. Quando estou no Brasil, eu torço para a Alemanha e quando estou na Alemanha torço para o Brasil! [risos] Gosto de contrariar a maioria. Mas na verdade gosto dos dois times por igual. Seria muito bom que o Brasil ganhasse em casa dessa vez, já que não deu certo na copa de 1950. Por outro lado eu queria que a Alemanha ganhasse o título outro vez para não ficar mais atrás da Itália. É uma pena que a Alemanha não ganhou em 2006. Mas vamos lá, eu diria que o resultado final vai ser 3x2 para o Brasil.

 


Créditos:

Olaf Dammann no Facebook

Biografia artística e diversos links com meus trabalhos musicais (em alemão)

Canal do Olaf Dammann no Youtube

Página oficial da banda Lightship Crew

Lightship Crew no Facebook 

 

Fotos: Olaf Dammann, arquivo pessoal

Entrevista concedida a Lia Alves para o Brasileiros-na-Alemanha.com, em maio de 2014


 

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