| Saber ouvir |
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| Andreia Barreto | |||
| Por: Andreia Barreto | |||
| 16.09.11 | |||
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Nossa rotina se tornou robotizada. Nossas palavras, cada vez mais vazias de emoção. Nossos sentimentos, afetos e dores tamponados pelas tarefas do dia-a-dia, que devem a todo custo serem realizadas com ultra perfeição e ao máximo de nossa performance. Em que se transformou o verdadeiro ato de se relacionar? Para onde foi a paciência e a disponibilidade real de ouvir o outro? Um diálogo tranqüilo com uma pessoa onde haja compreensão mútua torna-se cada vez mais escasso. Quando foi a última vez que você conversou com alguém e que ao invés de competição nas entrelinhas - disputa pelo título do melhor argumento - houveram sincronicidade e interesses recíprocos? Ouvir não significa apenas escutar ou simplesmente estar de corpo presente no momento em que o outro fala, saber ouvir significa considerar, significa por um momento apenas tentar sair de sua própria pele a fim de procurar sentir o que o outro sente e deseja comunicar, e assim tentar abraçar sem julgamentos a experiência ou angústia alheia. Por que casos de depressão em todas as faixas etárias e pessoas cada vez mais solitárias estão cada vez mais crescentes? Por que as taxas de suicídio e divórcio nas grandes metrópoles aumentam sem controle? Pense naquela pessoa que você ama, naquele amigo que você tanto gosta, você realmente o ouve? Notamos muitas vezes um sinal de tristeza ou preocupação marcando o rosto destas pessoas de nosso convívio mais próximo, mas estamos realmente dispostos a ouvir o que o outro tem a falar de sua dor? Por que sempre arranjamos tempo para criticar e julgar mas não para ouvir? Quem nunca teve aquela sensação de estar tentando explicar algo para alguém e esta pessoa o interrompe justo no meio do fluxo de suas emoções e pensamentos com enxurradas de suas próprias opiniões que não fazem o menor sentido com a sua temática, esse comportamento além de não ajudar, atrapalha, obrigando o sujeito engolir o restante de sua frase e conseqüentemente seus sentimentos que estavam prontinhos para serem postos para fora e trabalhados, tão ruim quanto engolir de volta o que estava prestes a sair, é ter de digerir tudo novamente, desta vez se sentindo mais sozinho. Quem já não ouviu de alguém (ou quem já não disse!) um sonoro: "sim sim, já até sei o que você vai falar...eu te conheço!" Esse tipo de frase carrega o significado da desistência do outro, retira a possibilidade do outro em transformar-se em algo novo e evoluir, não deixando espaço para mudança e novas expressões do vir-a-ser. Este atropelamento nas palavras caracterizando a falta de disponibilidade de ouvir, engessa o outro em um lugar onde ele talvez não mais pertença, o outro se decepciona e não se sentindo acolhido e compreendido, se afasta. A ação de exercitar uma escuta saudável que proponho aqui no dia-a-dia entre membros familiares e amigos ou pessoas próximas, é algo que não é terapia caseira mas que pode exercer um efeito terapêutico benéfico em quem num dado momento de sua vida precisa ser envolvido em uma rede de proteção e ajuda, afinal todos nós em alguma circunstância já nos vimos em momentos de vulnerabilidade e confusão. Os benefícios do exercício da escuta são evidentes, estes são a melhoria das relações em geral reduzindo mal-entendidos na comunicação, pois apenas através da escuta apurada é que conseguimos enxergar a real perspectiva do outro e conseqüentemente nos colocarmos de maneira mais apropriada e justa na situação em questão; mas não há como colher bons frutos numa horta onde não houve uma boa semeadura, isto é, a escuta é um exercício que deve ser praticado. É sinal de fortaleza aquele que expõe suas fraquezas e sabe pedir ajuda, covarde é o que banaliza, critica ou reprime a tentativa do outro em se aproximar, quando nos doamos para ouvir verdadeiramente o outro estamos contribuindo para diminuir o descrédito alheio, a distância entre as pessoas e a desconfiança tão impregnada em nossa sociedade traumatizada por guerras, violências e o individualismo cada vez mais extremado. Texto: Dipl.- Psych. Andreia Barreto de Miranda Copyright: Andreia Barreto de Miranda (concedeu autorização de publicação para brasileiros-na-alemanha.com)
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